O doce e o desvio
este texto foi escrito às 16h50, na recepção da terapia, faltando dez minutos para o meu atendimento
11/07/2024
Hoje saí do trabalho mais cedo, às 16h20 — algo que raramente acontece. Passei na cafeteria ao lado da Praça do Gil, outro desvio incomum na rotina. Pedi uma torta de ninho com maracujá, mesmo tendo ido até lá decidida a comprar um bombom de morango para comer no caminho da terapia. Mas, por algum motivo, escolhi a tal torta, mesmo sem dinheiro. Também estou com a bolsa vazia, o que é raro. Tenho essa mania de carregar pesos desnecessários nos ombros, mas, ainda assim, decidi levar um livro de 800 páginas na mão.
Então, sentei na cafeteria onde eu nem pretendia entrar e comi a torta que não deveria ter comprado. O lugar estava vazio, o que é estranho, considerando que hoje é sexta-feira. Havia um silêncio acolhedor, daquele tipo que convida à conversa. Mas eu estava sozinha.
Na mesa da frente, no entanto, havia uma senhora agradável, de turbante, curiosa sobre o que eu estava lendo. Respondi com alegria (amo quando me perguntam o que estou lendo), e ela conduziu a conversa por caminhos suaves, sempre com um sorriso gentil. Comentou o quanto o lugar era cortês, como adorava aquela torta que estava comendo, e que os doces de limão são os melhores porque não enjoam tão rápido.
Eu respondia com a mesma leveza. De algum modo, era muito agradável conversar com ela.
Contou que fazia tempo que não via o filho, que está fora do país a trabalho. Disse que é formada em História, deu aula por 35 anos e hoje está aposentada. Falou dos países que visitou com os olhos brilhando, e dos olhos marejados ao ver, pela primeira vez de perto, os fragmentos da história da África do Sul.
Falei, de forma discreta, o que eu fazia e estudava. Ela pareceu surpresa ao saber que eu não tenho 17 anos (rs). Então disse que foi muito bom conversar comigo. Revelou também que sente necessidade de conversar com as pessoas que encontra porque mora com o irmão, que é mudo. Fiquei surpresa. Acho que ela realmente precisava daquele encontro. De certa forma, eu também.
Agora, sentada na recepção da terapia enquanto espero ser atendida, me pergunto:
quantas coisas precisam dar errado para que certos encontros aconteçam?
Fico pensando em como a vida, por vezes, organiza uma sequência de pequenos desvios só para que duas pessoas que precisam conversar cruzem o mesmo caminho. O quanto algumas conversas existem apenas para nos lembrar que ainda estamos vivos. Que, mesmo sem perceber, há (muita) vida fora das quatro paredes onde passamos nossos dias. Para lembrar que viemos ao mundo para viver.
Não sei se a verei novamente. Talvez sim, talvez não. Talvez nosso encontro nem tenha significado algo para ela — e talvez nem precise significar. Algumas coisas não nascem com a intenção de serem grandiosas. Nascem destinadas a serem apenas um doce e gracioso lembrete de que há beleza em experienciar os dias.
Em caminhar pelas ruas, atravessar avenidas, dobrar esquinas e, de vez em quando, esbarrar em cafeterias, tortas de limão e na rotina que, por acaso ou destino, resolveu me surpreender.
Vejo esse encontro como um recado.
Um lembrete de que minha boa estrela me guia.
E me lembra das delícias que ganhamos quando nos permitimos viver em comunhão com o desconhecido.


