Formigas na mesa
e todas as possibilidades de texto que poderiam surgir diante deste fato
queria ter uma bola de cristal e saber o que vai acontecer nos próximos dez minutos. não preciso de muito. apenas isso: dez minutos. só para que eu consiga prever um pequeno imprevisto que pode atrasar todo o meu dia, ou saber se o texto que estou escrevendo agora realmente vai se tornar algo que valha a pena ser lido.
também queria um interruptor capaz de silenciar a minha mente. não por muito tempo, uns cinco minutos já bastariam. apenas para entender se o barulho dentro de mim me impede de ouvir o que está ao redor.
gostaria de entender se esse barulho me impede de prestar atenção nas formigas que atravessam a mesa neste exato momento, e que poderiam servir de inspiração para um texto sobre caminhos turvos ou estreitos, sobre a vida e sua adequação ao que chamamos de destino, sobre o trabalho insaciável que leva o ser vivo a seguir até morrer por acreditar que está fadado a viver trabalhando; sobre a força que só se revela quando alguém finalmente tira um peso das costas depois de muito tempo e outras coisas que só se percebe ao olhar para formigas andando na mesa.
sabe, acho que esse interruptor me permitiria ter o privilégio de ser menos racional. e também me permitiria não calcular meticulosamente todas as minhas ações porque tenho medo de errar.
quem me dera um dia conceder a mim mesma o privilégio de poder errar.
no entanto, não tenho uma bola de cristal para prever os próximos dez minutos e muito menos um interruptor interno. logo, sigo pensando nos meus próximos segundos, dias, meses, anos, sem parar. continuo imaginando todas as bifurcações possíveis que cabem dentro de 24 horas e fico tão presa na minha mente, que meus textos deixam de ser sobre formigas, insetos, plantas, ou qualquer coisa ao meu redor. me torno monotemática. percebo que este texto acabou seguindo o mesmo caminho de todos os outros que escrevi nos últimos meses: na busca por respostas, só consigo encontrar perguntas.
acho que não há sequer uma parte da minha vida que eu não tenha colocado em dúvida, que eu não tenha questionado se é mesmo certa para mim. dez minutos se passaram e eu ainda não sei se este texto vale a pena ser lido. mas acho que, ao menos, valeu a pena tê-lo escrito.
25/08/2025


