Amar o inútil
ouça, Virgínia:
De vez em quando, volto a pensar nos livros que li e acredito ter esquecido, mas que, na verdade, permanecem em algum lugar escondido da minha mente. Dias atrás, me peguei pensando em Ciranda de Pedra, da grandiosa Lygia Fagundes Telles. O trecho mais famoso da obra — a fala de Conrado para Virgínia, sobre amar o inútil — ficou plantado na minha cabeça. Mais especificamente, a frase diz:
“Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.”
Passei bons minutos da minha semana refletindo sobre o que significa amar o inútil. Amar aquilo que sei que talvez não tenha futuro, o que nem sei se um dia me servirá, mas amar o simples fato de fazer. Amar o processo sem se aprisionar ao resultado final; aproveitar o caminho, e não apenas o destino.
Aproveitar o que estou fazendo porque eu estou fazendo. Amar cada ação realizada por mim, tanto as impensadas quanto as racionais, simplesmente porque fui eu quem as escolheu e porque assumo a responsabilidade por elas. Mas não apenas amar o que faço: amar também o que não faço. Amar o inútil do ócio, amar o que é inerte, os vazios, os silêncios, o tempo que não “produz”, mas que, ainda assim, existe e me pertence.
Fico pensando: será que estou, de fato, amando o inútil, ou apenas direcionando minha atenção para aquilo que me traz algum tipo de resultado, mesmo quando esse resultado não é bom, mesmo quando ele me consome? Será que eu coloco utilidade nas coisas que não são úteis, ou que nem sequer deveriam ser? Será que estou conseguindo amar o que não me traz retorno?
Como é viver sem amar o resultado?
Penso que viver esperando o resultado é viver uma vida de idealizações: imaginar finais perfeitos para ações imperfeitas, projetar sentidos que talvez nunca existam. É viver apostando em um desfecho que não controla, esquecendo que não há nada realmente perfeito — e que a beleza mora justamente na imperfeição: no não ser, ou no ser incompleto, ou ainda no ser inteiro, mas humano, falho, real.


